As Epidemias Silenciosas

Enquanto o mundo se debate contra a pandemia do novo coronavírus, os velhos inimigos estão à espreita – e raramente há espaço para falar deles. Nos países em desenvolvimento já falta tudo: desde antivirais para os infetados com HIV, diagnóstico e tratamento de tuberculose ou redes mosquiteiras, para evitar a dengue e a malária – só esta última doença matou mais de 400 mil pessoas em 2018. Numa altura em que tantos sistemas de saúde estão entupidos com casos de covid-19, a época das monções aproxima-se a passo rápido do sub-continente indiano e de países da África Oriental, como Moçambique. As chuvas torrenciais, a partir do início de junho, deixarão para trás grandes corpos de água parada, ideais para a reprodução de mosquitos.

«Umas duas ou três semanas depois de começar a chover aumentam os casos de malária», explica ao SOL Jorge Seixas, diretor da Unidade de Clínica Tropical, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), da Universidade Nova de Lisboa. «Nessas áreas, não há um mal que venha sozinho», lamenta.

Estamos a falar de uma catástrofe a uma escala colossal, mesmo comparada com a covid-19, que já matou mais de 335 mil pessoas em todo o planeta – um número que continuará a subir. As previsões, da OMS e várias universidades, apontam que as mortes por malária possam duplicar em 2020, devido aos estragos da pandemia, com uns 6,3 milhões casos adicionais de tuberculose entre 2020 e 2025, bem como 500 mil mortes extra de pacientes com HIV, entre 2020 e 2021.

Olhando para os números e para falta de resposta, é difícil não recordar o que estas doenças infecciosas têm em comum: afetam sobretudo países em esenvolvimento. Aliás, certa vez, numa TED Talk, Bill Gates, cuja fundação se tem dedicado ao problema, queixou-se que há mais investimento na investigação à cálvice masculina do que à malária. E importa lembrar que em 2016 gastou-se o equivalente a uns escassos 4 mil milhões de euros no combate à doença – ficou-se uns 2 mil milhões de euros abaixo do objetivo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

«O nosso amigo Bill tem assim umas imagens interessantes», diz Jorge Seixas, entre gargalhadas. «Mas é verdade. Porque estas doenças tropicais atingem populações carenciadas, que não têm visibilidade política, em países com dificuldades sérias de gestão dos seus sistemas de saúde. E por não atingirem – por enquanto – com grande intensidades países ricos», considera o médico do IHMT. Afinal, «a indústria farmacêutica, não é uma instituição de beneficência », salienta.

«A indústria farmacêutica visa distribuir lucros aos seus acionistas».

‘Quando vamos para África, é um bocadinho diferente’

Uma das grandes questões por responder é qual a interação entre o SARS-Cov-2, o vírus que causa a covid-19, e todos estes parasitas, bactérias e outros vírus: simplesmente ainda é demasiado cedo para se saber.

«Aquilo que tem sido publicado até agora ainda não é conclusivo», acautela Ana Abecasis, diretora da Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística do IHMT, cujo trabalho de investigação ao HIV tem sido premiado. Curiosamente, no que toca às pessoas infetadas por este vírus, «não parece haver grande preocupação de que esses doentes tenham especial risco de desenvolver uma doença grave por covid», considera a investigadora.

É que, apesar do HIV debilitar o sistema imunitário, há a possibilidade dos tratamentos diários antivirais a que obriga tenham alguma ação contra o SARS-Cov-2. Alguns hospitais já os têm utilizado para tratar o novo coronavírus, «obviamente, sem evidência que haja efeito contra o vírus», salienta Abecasis. «Até porque não há nenhum medicamento que tenha comprovadamente mostrado eficácia contra a SARS-Cov-2». Desde que que os pacientes estejam bem tratados, ou seja, com uma carga viral suprimida, os efeitos do HIV são muito poucos.

«Claro que quando vamos para África as coisas são um bocadinho diferentes. Ainda podemos ter doentes que não tenham a infeção controlada», nota a investigadora. Se a situação não era fácil, piorou com a perturbação na distribuição de antivirais causada pela pandemia. «Vamos ter problemas. A nossa preocupação o ano passado, na sequência dos ciclones Idai e Kenneth, em Moçambique, também foi o acesso a medicamentos», relembra.

«Os doentes que não sejam medicados adequadamente vão voltar a ter cargas virais detetáveis. O perigo, por um lado, é voltarem a evoluir na infeção. Por outro, podem transmiti-la». Ao tomarem medicamentos de forma irregular, «podem desenvolver estirpes resistentes, diferentes das que já conhecemos», receia Abecasis – algo particularmente grave em países mais pobres. É que nos mais países desenvolvidos, «todos os doentes diagnosticados com a infeção HIV imediatamente fazem um teste de resistência», explica a investigadora. Se der positivo, recebem os medicamentos adequados, sem problemas de maior – o tratamento é simplesmente mais caro. Contudo, «em África os testes de resistência
não estão disponíveis».

Mosquiteiros e milagres

«O verdadeiro custo da covid–19 em África vai ser  medido mais pelo seu impacto nas outras doenças», declarou Peter Sands, diretor do Fundo Global contra Sida, Tuberculose e Malária, a semana passada. «Uma das grandes conquistas dos últimos anos foi a redução da mortalidade infantil devido à malária», considerou. «O ‘truque’ é a criança ser diagnosticada e tratada em 24 horas. E isso não vai acontecer se houver disrupções dos serviços de saúde».

As medidas de prevenção contra a doença também começam a ficar para trás. Dado que a malária é um parasita transmitido por um mosquito – «uma mosquita aliás, é a fêmea do mosquito que a transmite», ressalva Jorge Seixas – a primeira coisa é evitar o contacto com estes insetos. «A medida mais importante é a utilização de redes mosquiteiras, impregnadas com inseticida, debaixo das quais as pessoas dormem», explica.

Outra preocupação é que se esgotem os medicamentos para a malária, muitos dos quais estão a ser apresentados como ‘curas maravilha’ para a covid-19, sem qualquer evidência científica disso.

O primeiro exemplo que vem à cabeça é a hidroxicloroquina, cujos méritos são exaltados por líderes mundiais como Donald Trump e Jair Bolsonaro – mas o medicamento nem é o mais problemático. «A hidroxicloroquina já não é utilizada no tratamento da malária, em nenhum país no mundo. Já não funciona, o parasita da malária ganhou resistência», nota Seixas – o medicamento só faz falta a doentes como lupus ou artrite reumatoide. No que toca à malária, o problema pode ser um ‘chá milagroso’ contra o novo coronavírus, produzido em Madagáscar, que dá pelo nome de Covid-Organics.

«É feito a partir de uma planta que se chama artemísia. E dessa planta tiram-se medicamentos para a malária», explica o médico. «Levanta alguma preocupação, se o chá começa a ser muito usado em África».

Doença da pobreza

Além da malária e do HIV, a terceira das chamadas ‘Big Three’, as doenças da pobreza, é a tuberculose – que continua a ter uma incidência significativa em Portugal. As estatísticas mostram que o país fez avanços quanto à doença, mas teme-se que a pandemia deite tudo a perder.

De momento, verifica-se uma diminuição nos diagnósticos de tuberculose, «o que poderá significar casos de doença ainda não diagnosticados com consequente infecciosidade», explicou ao SOL Isabel Carvalho, diretora do Programa Nacional para a Tuberculose, da Direção Geral da Saúde.

É que, enquanto estamos todos preocupados com covid-19, «a tuberculose apresenta sintomas semelhantes a outras infeções respiratórias, tal como a tosse produtiva, febre e astenia», nota a médica. «Frequentemente, estes sintomas são desvalorizados, podendo conduzir ao atraso no diagnóstico», avisa, lembrando: «O início precoce do tratamento protege a família e conviventes e melhora o prognóstico».

Não que seja tudo más notícias. «O isolamento social, as medidas de etiqueta respiratória e de utilização de máscara permitem também ajudar na diminuição do contágio inerente à tuberculose», afirma a dirigente de saúde.

Ainda assim, a nível mundial, a brutal crise económica causada pela pandemia «terá repercussão no aumento de doenças infecciosas como a tuberculose, frequentemente associadas a grupos mais vulneráveis e com menor possibilidade de acesso aos cuidados de saúde», alerta Isabel Carvalho.

Trata-se de uma doença silenciosa e esquecida. «Quanto menos tuberculose, menos pensamos nela. E mais tarde será o diagnóstico, com consequência para a família», lamenta a médica.

No entanto, as ‘Big Three’ nem sequer estão entre as doenças mais negligenciadas – estas são literalmente apelidadas de ‘Doença Tropicais Negligenciadas’. A lista é longa e incluí nomes como dengue, leishmaniose, úlcera de Buruli ou a chicungunha. A OMS estima que mais de mil milhões de pessoas sofram de alguma destas doenças, um pouco por todo o mundo – mas sobretudo em países em desenvolvimento.

in SOL, Maio 2020, por João Campos Rodrigues

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